Caso Master: Mercadante aponta falhas do BC e da CVM

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Aloizio Mercadante resolveu dizer em voz alta o que Brasília costuma discutir em voz baixa. Para o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a fiscalização exercida pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários está “muito fragilizada”.

A declaração foi feita nesta quarta-feira (23/9), durante o J. Safra Investment Conference, em São Paulo. O encontro promovido pelo Banco Safra reuniu cerca de 2 mil investidores, empresários e especialistas para discutir eleições, inteligência artificial, energia, agronegócio e crédito. Mercadante, porém, levou ao auditório uma pergunta bem menos confortável: quem fiscaliza o dinheiro no Brasil e por que os problemas só aparecem quando a conta já está pronta?

Ao comentar o caso do Banco Master, o presidente do BNDES abandonou os eufemismos bancários e classificou o episódio como “um crime financeiro de grande escala”. Também dirigiu críticas à atuação do Banco Central.

Segundo Mercadante, a autoridade monetária já dispunha de informações suficientes quando a situação da instituição alcançou um “patamar elevado”. Em outras palavras, os sinais estavam na mesa. Faltou saber por que a fiscalização não agiu antes.

“Se nós temos essas informações, o Banco Central tem muito mais informações. Então, a fiscalização e a regulação do Banco Central e da CVM têm que ser fortalecidas, têm que ter mais presença”, afirmou.

A observação toca no ponto que o sistema financeiro prefere embrulhar em relatórios técnicos: não basta criar regras, divulgar indicadores e produzir comunicados impecáveis. Regulação que chega depois do desastre serve para organizar os escombros, não para proteger o mercado.

Mercadante também cobrou maior rigor sobre as fintechs e criticou o modelo de funcionamento de determinadas contas utilizadas nesse segmento.

“A forma como liberaram essas fintechs, aquelas contas de balcão, aquilo ali é um instrumento de lavagem de dinheiro e de fraude em grande escala. E que recai onde? Sobre as contas públicas. Em última instância, tudo vai parar no Tesouro Nacional”, declarou.

A conta, como quase sempre acontece no Brasil, termina no endereço mais conhecido da República: o bolso do contribuinte. O lucro permanece privado enquanto o prejuízo procura abrigo no Tesouro.

Durante a palestra, o presidente do BNDES defendeu ainda um pacto envolvendo Executivo, Legislativo, Judiciário, Estados e municípios para enfrentar o desequilíbrio fiscal e criar condições para uma redução sustentável da taxa básica de juros.

Para Mercadante, o ajuste das contas públicas é necessário, mas não encerra a discussão. A política monetária também precisa entrar no debate, especialmente diante do custo elevado do crédito e de seus efeitos sobre os investimentos e o crescimento econômico.

O diagnóstico apresentado é incômodo, mas simples: o país não reduzirá estruturalmente os juros apenas com discursos sobre responsabilidade fiscal. Também será necessário enfrentar as falhas de fiscalização de um sistema financeiro que parece sofisticado para produzir lucros, mas surpreendentemente distraído quando precisa evitar fraudes.

 
 
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