O algoritmo cobrou a conta: Alek Maracajá já apontava a fraqueza digital de Lula
Há derrotas que começam muito antes da abertura das urnas. Começam quando a política muda, mas seus protagonistas continuam falando a língua de um mundo que já desapareceu.
O primeiro turno das eleições de 2026 deixou um aviso difícil de ignorar. Flávio Bolsonaro chegou a 47% dos votos válidos, contra 45,2% de Luiz Inácio Lula da Silva. Mais do que a diferença eleitoral, porém, chama atenção o que aconteceu no território em que parte cada vez maior da política brasileira é construída, disputada e multiplicada: as redes sociais.
O diagnóstico ajuda a compreender uma transformação que Alek Maracajá colocou no centro de seu livro Brasil Digital: Nas Entrelinhas da Polarização Política – Uma Análise de Big Data de 2017 a 2024. A política entrou definitivamente na era dos algoritmos. Quem continuar tratando a internet como uma simples extensão da televisão estará disputando uma eleição que já não existe.
Os números do Termômetro Eleitoral 2026, produzido pela Ativaweb DataLab, são eloquentes. Em 30 dias, Lula publicou 367 vezes no Instagram. Flávio Bolsonaro, apenas 85. Apesar disso, Flávio conquistou 1,256 milhão de novos seguidores, enquanto Lula acrescentou 816,9 mil.
Publicar mais, portanto, não significou comunicar melhor.
A diferença aparece com ainda mais força no engajamento. Flávio encerrou o período com 5,87%. Lula, com 1,38%. Nos 30 dias analisados, o presidente não superou o adversário nesse indicador uma única vez. Segundo o monitoramento anual citado pelo DataLab, isso ocorreu em apenas um dia de 2026.
É nesse ponto que o problema deixa de ser tecnológico e passa a ser político.
Lula possui milhões de seguidores, a exposição natural da Presidência da República e uma estrutura profissional de comunicação. Mas audiência não é sinônimo de influência, assim como quantidade não significa mobilização. O próprio levantamento define o quadro do presidente de maneira incômoda: “grande audiência, pouca mobilização”. Lula ainda lidera em número absoluto de seguidores, mas sua vantagem sobre Flávio caiu em 439.432 em apenas 30 dias.
A política digital não premia burocracia.
O algoritmo tampouco se impressiona com cargo, palanque ou currículo. Sua lógica de distribuição responde à reação do público. É nesse território que indignação, identidade, confronto, humor, pertencimento e emoção passaram a disputar espaço com o velho comunicado institucional.
O bolsonarismo compreendeu essa mudança cedo. Transformou seguidores em militância e publicações em acontecimentos. Pode-se criticar, e deve-se, quando necessário, o conteúdo, o radicalismo ou os métodos. O que não se pode fazer é fingir que a estratégia não existe.
A comparação do dia da eleição é particularmente reveladora. Cada candidato publicou apenas uma vez. Flávio ganhou 304.080 seguidores e chegou a 5,87% de engajamento. Lula ganhou 97.384 e ficou em 1,38%. Com o mesmo volume de publicações, a diferença de mobilização permaneceu.
Eis o problema que o segundo turno coloca diante da campanha de Lula.
Não basta produzir mais vídeos. Não basta convocar artistas. Não basta transformar a agenda presidencial em postagem. TikTok, Kwai, Instagram e Reels possuem linguagem, velocidade e dinâmica próprias. O relatório destaca vídeos verticais curtos, ganchos nos primeiros segundos, comunicação direta, humor e respostas rápidas aos assuntos do dia. Também adverte que conteúdo pensado para televisão ou para a agenda oficial perde força nesse ambiente.
Em outras palavras, a campanha de Lula ainda corre o risco de tratar a internet como televisão.
E talvez seja justamente por isso que o livro de Alek Maracajá tenha se tornado ainda mais atual depois do primeiro turno.
Brasil Digital não deve ser lido como uma profecia eleitoral nem como um manual para candidatos. Sua importância está em chamar atenção para uma mudança estrutural: a tecnologia deixou de ser apenas instrumento da política e passou a interferir na maneira como a própria política circula, mobiliza e organiza comunidades.
A eleição de 2026 tornou essa discussão concreta.
Se Lula e seus estrategistas ainda não leram o livro, deveriam fazê-lo antes que as urnas escrevam o último capítulo.
Não para copiar o bolsonarismo. Seria uma conclusão simplista. O desafio é compreender por que um lado consegue transformar sua audiência em uma comunidade ativa enquanto o outro, mesmo publicando quatro vezes mais, obtém resposta proporcionalmente muito menor.
O relatório do DataLab chega a uma recomendação igualmente simples: reduzir volume e aumentar impacto, produzir conteúdo na linguagem de cada plataforma, coordenar influenciadores, lideranças e militância e acompanhar diariamente o comportamento digital dos dois lados. O estudo faz uma ressalva indispensável: essas interpretações decorrem dos padrões observados e não constituem prova de relação causal entre desempenho nas redes e resultado eleitoral.
Essa cautela importa.
Redes sociais não elegem presidentes sozinhas. Economia, avaliação de governo, rejeição, alianças, acontecimentos políticos, território, televisão e uma infinidade de outras variáveis continuam pesando sobre o voto.
Mas seria igualmente ingênuo concluir que aquilo que acontece nas telas termina nas telas.
O algoritmo seleciona atenção. A atenção produz conversa. A conversa constrói percepção. A percepção pode influenciar comportamento político.
Foi justamente essa transformação que Brasil Digital procurou colocar em discussão.
Talvez o maior problema da campanha de Lula, portanto, não seja ter deixado de ler um livro.
É correr o risco de não ler o tempo em que está vivendo.
O segundo turno será curto.
O algoritmo não costuma esperar.
Com informações do Coluna Política.