Flávio vai; Lula, não; Faltar ao debate da Globo é decisão de alto risco
Lula foi mal no debate do segundo turno da TV Bandeirantes nas eleições de 1989, contra Fernando Collor de Mello, na avaliação de muitos dos próprios petistas. Fora surpreendido por uma referência cifrada a um aparelho de som "três em um" - rádio, vitrola e toca-fitas - que teria dado de presente a uma ex-namorada. Segundo o relato, a história chegara ao conhecimento de Marisa Letícia às vésperas do confronto, provocando uma crise doméstica. Lula já havia sido alvejado pela exploração eleitoral de seu relacionamento com Miriam Cordeiro, mãe de sua filha Lurian. Chegou aos estúdios da Bandeirantes cansado e despreparado, segundo Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha.
"A orientação é fazer uma edição com o pior de Lula e o melhor de Collor", disse Ronald de Carvalho ao editor Octavio Tostes, na tarde de 15 de dezembro, na ilha 10 de edição. "Põe aquele negócio de sub-raça", completou. A ordem era de Alberico de Souza Cruz. "O que aconteceu, Alberico? Quem foi que fez isso?", indagou Boni. "Estou cumprindo ordens do doutor Roberto, Boni", respondeu Alberico. Os bastidores do debate e da edição manipulada de seu resumo pelo Jornal Nacional são relatados pelo jornalista Ernesto Rodrigues em A Globo: concorrência (1985-1998), segundo volume de sua trilogia sobre a história da emissora (Autêntica).
Houve duas disputas: a transmitida ao vivo e aquela reconstruída pela Globo no dia seguinte. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, contou posteriormente que, antes do debate, aconselhara Collor a retirar a gravata, simular suor com glicerina e apresentar pastas vazias como se contivessem denúncias contra Lula. Collor contestou essa versão. A encenação descrita por Boni procurava reduzir a aparência aristocrática do candidato e intimidar o adversário.
Com informações do Correio Brasziliense.