O ADVOGADO DE 2050 VAI SER MUITO DIFERENTE DO DE HOJE?
Depois que escrevi sobre como imagino o médico de 2050, recebi sugestões para fazer o mesmo exercício com advogados, professores e várias outras profissões.
A ideia me interessou porque é instigante falar sobre isso. Todo brasileiro adora dar seus pitacos sobre o futuro, não é? Então, vamos lá.
É claro que a história não costuma tratar muito bem quem faz previsões. Quase sempre alguém erra feio. Mesmo assim, vou correr o risco.
No meu dia a dia, lido com muitos advogados e tenho percebido como esses profissionais já atravessam um enorme processo de transformação.
Para começo de conversa, preciso dizer que aprendi com um amigo uma lógica que sempre me vem à cabeça quando penso em como estaremos daqui a 10, 20 ou 30 anos: olho primeiro para o que já está acontecendo na China, no Japão e naquelas bandas do Oriente.
Nos eventos de inovação dos quais participo como CEO do Ilha Tech, tenho visto essas transformações de perto. Em diferentes setores, a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio e passou a redesenhar processos inteiros, funções e modelos de negócio.
Na advocacia, isso é especialmente visível.
Durante décadas, grande parte do valor do advogado esteve associada à capacidade de conhecer a lei, localizar jurisprudência, interpretar contratos, produzir pareceres, redigir petições e organizar argumentos jurídicos.
Mas hoje já existem sistemas capazes de ler milhares de documentos em poucos segundos, comparar decisões, identificar riscos, resumir processos, sugerir argumentos e produzir primeiras versões de peças.
Por isso, este talvez seja o principal cuidado ao falar do advogado de 2050: grande parte do que estamos descrevendo já está acontecendo.
2050 não é o momento em que essa transformação começará. É apenas um horizonte para imaginar até onde ela poderá chegar.
Richard Susskind, autor de Tomorrow's Lawyers e uma das principais referências mundiais sobre tecnologia e Direito, vem discutindo essa mudança há décadas.
Uma de suas ideias mais provocadoras é também bastante simples: o cliente não deseja necessariamente um advogado. Ele deseja resolver um problema.
Enquanto o modelo tradicional valoriza horas trabalhadas, documentos produzidos e processos conduzidos, o cliente quer resultado.
A inteligência artificial acelera essa mudança.
Se uma máquina consegue revisar centenas de páginas de um contrato em poucos minutos, identificar cláusulas de risco e comparar aquele documento com milhares de outros, será cada vez mais difícil justificar valor apenas pelo tempo gasto para executar a tarefa.
O advogado tende a ser valorizado por outras competências.
Estratégia.
Negociação.
Criatividade.
Leitura de pessoas.
Compreensão dos negócios do cliente.
Capacidade de perceber aquilo que não está escrito no processo nem no contrato.
Benjamin Alarie e Abdi Aidid, autores de The Legal Singularity, discutem um futuro em que sistemas de inteligência artificial poderão tornar determinadas decisões jurídicas cada vez mais previsíveis.
Se for possível estimar com boa precisão como determinado tribunal tende a decidir, o valor do advogado deixará de estar apenas em conhecer o precedente.
Estará em saber o que fazer diante dele.
Negociar ou litigar?
Fazer um acordo agora ou esperar?
Criar uma tese nova ou seguir a jurisprudência dominante?
Qual risco vale a pena assumir?
Essas perguntas não são apenas jurídicas. São estratégicas e humanas.
Existe ainda outra transformação que considero preocupante.
Talvez a figura clássica do estagiário de Direito, encarregado de pesquisar jurisprudência, resumir processos, revisar documentos e preparar primeiras versões de peças, esteja começando a desaparecer.
Não porque o jovem perdeu importância, mas porque boa parte das tarefas usadas para treiná-lo já pode ser realizada por uma máquina.
E aí surge um problema interessante: como formar bons advogados se a tecnologia eliminar justamente os primeiros degraus pelos quais eles aprendiam a profissão?
Talvez os escritórios tenham que repensar não apenas como trabalham, mas também como ensinam.
O jovem profissional precisará chegar mais cedo às discussões estratégicas, aprender negociação, compreender negócios, participar de reuniões desenvolver raciocínio lógico. e
A inteligência artificial pode eliminar tarefas. Mas também pode antecipar responsabilidades.
Por isso, não acredito que o advogado vá desaparecer.
Acredito que desaparecerá, pouco a pouco, uma determinada maneira de exercer a advocacia.
O advogado sem jogo de cintura, engessado e excessivamente teórico vai sofrer.
O profissional que aprender a usar essa inteligência para pensar melhor, decidir melhor, negociar melhor e compreender melhor seu cliente poderá se tornar muito relevante.
Em 2050, conhecer a lei continuará sendo obrigatório.
Só não será mais suficiente.
Com informações do Paraíba Business.