OPINIÃO - MILTON FIGUEIRÊDO LULA PERDEU A OPORTUNIDADE DE ASSUMIR AS LIMITAÇÕES, FAZER UM SUCESSOR E SABER A HORA DE PARAR

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Eu sei que muitos vão ler este artigo e imediatamente atirar pedras. Não me incomoda. Essa é a beleza da democracia: Lula tem o direito de querer continuar no poder e qualquer cidadão tem o direito de questionar essa escolha. Aos 80 anos, depois de três mandatos e décadas como protagonista absoluto da esquerda brasileira, poderia ter reconhecido algo que a vida impõe a todos nós: existe hora para começar e também existe hora para parar. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, concluiu seus oito anos de governo em 2002, deixou o Palácio do Planalto e seu campo político apresentou José Serra como candidato à sucessão. Serra perdeu para o próprio Lula, mas FHC passou o bastão e deixou que outro nome disputasse o futuro do seu projeto político.

E os acontecimentos recentes tornam essa discussão ainda mais necessária. Em Belém, Lula fez declarações sobre mulheres e “toque” ao falar da prevenção ao câncer de próstata, numa escolha de palavras que provocou forte repercussão e depois exigiu explicações do próprio presidente. No mesmo evento, telefonou ao vivo para o ministro do STF Flávio Dino, expondo publicamente uma proximidade entre o chefe do Executivo e um integrante da mais alta Corte do país. São episódios que alimentam controvérsias absolutamente dispensáveis quando o Brasil deveria estar concentrado em problemas muito mais sérios.

O país precisa discutir segurança pública, inflação, equilíbrio fiscal, segurança jurídica, crescimento, produtividade e reformas capazes de modernizar o Estado. Precisa recuperar confiança e previsibilidade. Na minha avaliação, porém, assistimos a decisões atropeladas, medidas de forte apelo eleitoral, conflitos institucionais e um ambiente de permanente tensão política. Corrupção e suspeitas de enriquecimento ilícito, quando existentes, precisam ser investigadas com rigor e devido processo, independentemente de quem esteja envolvido. O Brasil não pode continuar trocando reformas profundas por espetáculo político.

E volto à pergunta inevitável: será que não existe mais ninguém na esquerda brasileira? Lula poderia ter preparado um sucessor, defendido suas ideias e usado sua experiência para abrir caminho a uma nova geração. Pode até conquistar novamente a confiança da maioria dos eleitores e ser reeleito — essa decisão pertence exclusivamente às urnas. Mas, na minha avaliação, a perspectiva de uma mudança profunda no rumo do país sob a continuidade do mesmo projeto é praticamente nula. Depois de tantos anos, personagens e promessas, esperar resultados radicalmente diferentes fazendo essencialmente as mesmas escolhas parece cada vez mais difícil. Ninguém é eterno. Saber chegar ao poder é importante. Saber a hora de passar o bastão também é grandeza.

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