Opinião – Milton Figueirêdo | Michelle avança, Flávio patina e o comando político do bolsonarismo pode estar mudando; mulher do capitão poderá ser a candidata à Presidência da República

Geral

A política é feita de fatos, mas também de sinais. E, muitas vezes, são esses sinais que antecipam movimentos importantes. O momento vivido pelo bolsonarismo parece ser um exemplo disso.


As recentes divergências públicas envolvendo Michelle Bolsonaro e integrantes da família Bolsonaro, especialmente o senador Flávio Bolsonaro, deixaram de ser apenas um conflito interno para ganhar dimensão política. Ao mesmo tempo, os ataques do influenciador Paulo Figueiredo contra a ex-primeira-dama aumentaram a tensão dentro do grupo liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.


Michelle, no entanto, adotou um caminho diferente. Evitou ampliar o confronto, manteve sua agenda política e reforçou sua aproximação com o eleitorado conservador, especialmente mulheres e evangélicos, preservando uma postura de equilíbrio.


Já Paulo Figueiredo ultrapassou o debate político ao fazer críticas pessoais que provocaram forte reação, inclusive entre bolsonaristas. Para muitos, suas declarações assumiram um tom misógino, ao direcionar ataques à atuação de Michelle por sua condição de mulher, e não por suas posições políticas. O resultado pode ter sido exatamente o oposto do esperado: fortalecer a imagem da ex-primeira-dama.


Enquanto isso, Flávio Bolsonaro vive um momento delicado. A exposição das divergências enfraquece sua posição justamente quando era visto por muitos como o sucessor natural da liderança política do pai.
Na política, percepção também produz efeitos. E a impressão que começa a ganhar força é a de que Michelle cresce enquanto Flávio perde protagonismo.


Há outro elemento que merece reflexão. Jair Bolsonaro sempre exerceu forte controle sobre as decisões estratégicas do seu grupo político. Não existe confirmação pública de que ele esteja conduzindo esse movimento, mas também parece difícil imaginar que Michelle assumisse tamanho protagonismo sem, ao menos, contar com seu conhecimento ou respaldo político.


Trata-se de uma interpretação dos fatos, e não de uma afirmação.


Se esse cenário evoluir nessa direção, Flávio Bolsonaro poderá acabar ficando em segundo plano na disputa pela sucessão da liderança do bolsonarismo.


Michelle, por outro lado, reúne atributos considerados relevantes para uma candidatura nacional: menor rejeição, forte identificação com o eleitorado feminino e religioso, boa capacidade de comunicação e uma imagem política ainda pouco desgastada.


Pesquisas divulgadas nos últimos meses também mostram Michelle entre os nomes mais competitivos da direita para uma eventual disputa presidencial em 2026, especialmente diante da inelegibilidade de Jair Bolsonaro.
A sucessão dentro do bolsonarismo pode já ter começado. E, se Michelle Bolsonaro estiver consolidando esse espaço, dificilmente isso aconteceria sem o aval político do ex-presidente.


Caso essa leitura se confirme, o bolsonarismo poderá apresentar Michelle Bolsonaro como sua candidata à Presidência da República, enquanto Flávio Bolsonaro corre o risco de perder o protagonismo que muitos imaginavam ser naturalmente seu.


A política costuma premiar quem entende o momento certo de agir. E, hoje, todos os sinais indicam que Michelle Bolsonaro pode estar assumindo, de forma gradual, a dianteira do projeto político liderado pelo capitão Jair Bolsonaro.


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